Sem coleta seletiva, Alagoas vai importar lixo para reciclar

26/04/2013 23h38
Acássia Deliê

Empresa que beneficia garrafas PET completa cadeia de reciclagem no estado, mas ainda carece de matéria-prima

À margem do quilômetro 88 da BR-104, em Rio Largo, na região metropolitana de Maceió, o nome pintado no muro branco de cal anuncia a novidade que pode vir a minimizar um dos maiores problemas ambientais da capital alagoana: a destinação dos resíduos sólidos. Aguardando apenas a instalação das últimas máquinas para entrar definitivamente em operação, a empresa paulista Clodax Reciclagem chega a Alagoas com a perspectiva de fechar a cadeia de reciclagem do plástico PET no Estado e ampliar as possibilidades do setor nas regiões Norte e Nordeste.

A boa notícia, entretanto, vem acompanhada de uma realidade que vai na contramão desta perspectiva. A falta de uma estrutura organizada de coleta seletiva do lixo em Maceió vai obrigar a empresa de reciclagem a comprar de outros estados mais da metade de sua matéria-prima, principalmente garrafas plásticas de refrigerantes e de produtos de limpeza já utilizadas pela população. O material, que comumente se vê de sobra boiando em riachos e entupindo bueiros em épocas de chuva, está em falta na lista de fornecedores da nova fábrica.

Nova fábrica está instalada em Rio Largo, à margem da BR-104. Fotos: Acássia Deliê

Investindo em nova tecnologia e com um cliente de peso já instalado no polo industrial de Marechal Deodoro, a Clodax prevê uma produção mensal inicial de 500 toneladas de PET reciclado em Alagoas, o que representa a retirada das ruas de praticamente a mesma quantidade de materiais que iriam para o lixo. Mas, de acordo com o superintendente administrativo da empresa, Patrick Rogério, no máximo 40% desse volume será comprado de depósitos alagoanos.

“Infelizmente, ainda não há no estado uma estrutura organizada de coleta seletiva que nos ofereça matéria-prima suficiente para o nosso volume de produção”, afirma Rogério. “Claro que mudar essa realidade é um dos nossos objetivos em Alagoas, mas até lá teremos que comprar descartes de outros estados, como a Bahia”.

O problema, ele reconhece, é comum a todo o Brasil, inclusive em São Paulo. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria do PET, o consumo do material dobrou em dez anos no país, chegando à marca de 572 mil toneladas em 2011. A associação afirma que mais de 50% do plástico já é reciclado no território brasileiro, mas o número é questionado pelas indústrias.

O último elo da cadeia

A Clodax, integrante do grupo Clodam do Brasil, chegou a Alagoas atraída tanto pelos incentivos oferecidos pelo governo estadual, por meio do Prodesin (Programa de Desenvolvimento Integrado), quanto pela possibilidade de atender à demanda da Interlândia Ltda., indústria que produz a água sanitária Dragão. A Interlândia se instalou em Alagoas em 2005 e a partir de 2011 passou a ser cliente da empresa paulista, ao se tornar a primeira do mundo a fabricar embalagens de água sanitária a partir do PET reciclado.

Máquinas transformam floco do PET em uma resina, que é vendida a fábricas de embalagens

Preformas feitas com resina reciclada se transformam em garrafas em máquinas de sopro

O plástico PET, cuja nomenclatura oficial é “politereftalato de etileno”, é um tipo de plástico utilizado na fabricação de garrafas e tecidos cujo mercado no Brasil tem cerca de 20 anos de idade. Além de ser um material resistente – é o único capaz de aguentar a pressão do refrigerante, por exemplo – o PET acabou se tornando um filão da indústria também pela capacidade que tem de ser reprocessado várias vezes, o que favorece sua reciclagem e uso contínuo na cadeia produtiva.

Veja no gráfico acima como as garrafas descartadas se transformam em novas garrafas.

Em Alagoas, a chegada da empresa paulista é o elo que faltava nesta cadeia, que começa com a coleta do material descartado pelos consumidores – em geral feita por catadores –, passa pela produção de uma resina a partir desse material, e termina com a utilização do plástico reciclado na produção de utensílios diversos, neste caso as embalagens de 1 litro da água sanitária.

"Agora temos a cadeia fechada aqui mesmo dentro de Alagoas e vamos economizar muito no processo”, relata Patrick Rogério, da Clodax. “Imagine que só o transporte de um caminhão carregado de resina custava R$ 8 mil. E além da economia, estamos investindo em tecnologia nova aqui no estado para atender às regiões Norte e Nordeste”.

João Bosco (esq.) mostra resina comprada para fabricar novas garrafas

Somente a Interlândia vai demandar cerca de 200 toneladas por mês da resina produzida no estado pela Clodax a partir de materiais coletados. Serão cerca de 6 milhões de garrafas de água sanitária fabricadas com plástico totalmente reciclado, gerando uma economia de até 20% no processo industrial, de acordo com o gerente comercial da fábrica, João Bosco Neto.

"Com uma tonelada de PET, por exemplo, fazemos mais garrafas do que com uma tonelada de polietileno, que é o plástico concorrente. E além disso, com uma qualidade maior e puxando menos energia das máquinas, já que a tecnologia de fabricação é mais avançada”, explica João Bosco. “Hoje só fabricamos as garrafas de 1 litro com PET reciclado, mas continuamos estudando formas de produzir com segurança as outras garrafas maiores, de dois litros”.

A indústria aposta também em outra vertente da cadeia: o retorno das próprias embalagens para a reciclagem. Segundo João Bosco, 25% das garrafas de água sanitária da empresa fabricadas com PET já voltam para a cadeia e se transformam em novas garrafas, mas a perspectiva é de que esta parcela chegue a 50% até 2014.

Seis milhões de garrafas de água sanitária são produzidas por mês na fábrica em AL

A fragilidade das cooperativas

Mas para que a cadeia da reciclagem se consolide de forma efetiva em Alagoas, o primeiro elo precisa ser fortalecido. Hoje, a capital do Estado conta apenas com três cooperativas de catadores em operação, cuja produção é insignificante diante do volume de lixo produzido pela população e, agora, diante também da demanda industrial.

Uma delas, a Cooprel (Cooperativa dos Recicladores de Alagoas), conta apenas com 18 associados – a maioria ex-funcionários da extinta Cobel (Companhia de Beneficiamento de Lixo) – e um galpão alugado no bairro de Antares, na parte alta da cidade. A renda mensal de cada catador é inferior a um salário mínimo e varia de acordo com a quantidade de lixo coletado na cidade.

O trabalho de coleta da cooperativa é basicamente feito de porta em porta, por tração humana, as conhecidas carrocinhas puxadas nas ruas pelos próprios catadores. Além disso, o grupo conta apenas com uma caçamba, cedida por uma das empresas de lixo contratadas pela Prefeitura de Maceió, que serve para recolher materiais descartados por consumidores maiores, como supermercados e escolas.

Somados todos os produtos coletados, entre plásticos, papelões, metais, vidros e outros, a cooperativa coleta de 13 a 14 toneladas de lixo por mês, das quais apenas duas são de PET. Cada quilo do material, que já sai separado e prensado da cooperativa, é vendido aos depósitos por um preço que varia entre R$ 1 e R$ 1,20. Na outra ponta da cadeia, o quilo da resina é vendido às fábricas por um preço que chega a R$ 4 o quilo.

Maria José e as garrafas de PET coletadas em Maceió: duas toneladas

"Quando vejo o Salgadinho me dá uma revolta"

A busca por apoio e crescimento é uma luta diária da presidente da cooperativa, Maria José Lins, de 54 anos, que continua esperando do poder público e da sociedade a valorização sonhada pelo trabalho que realiza na cidade.

“Quando vejo aquele Riacho Salgadinho cheio de lixo, me dá uma revolta, porque aquela água era tão limpa que eu cheguei a lavar roupa lá”, desabafa Maria José. “E não adianta culpar o prefeito, porque não é ele que manda jogar o lixo ali. A população não é acostumada a separar o lixo. Agora imagina se não fosse a gente recolhendo o lixo nas ruas?”.

Toneladas de lixo são carregadas pelo Riacho Salgadinho até a orla de Maceió. Foto: Sidney Tenório/Arquivo

O trabalho das cooperativas já chamou a atenção da Universidade Federal de Alagoas, que desenvolve um projeto de pesquisa com os catadores. Sob a coordenação da professora-doutora Yone Stroh, do curso de Geografia, o projeto tem auxiliado na busca de incentivos do poder público à coleta seletiva na capital alagoana.

Uma das estudantes que fazem parte do projeto explicou que o maior objetivo do grupo é orientar as cooperativas para que elas venham a ter maior autogestão. “Os catadores não fazem nem precisam de caridade, porque o que eles fazem é serviço público. Se uma prefeitura paga R$ 8 milhões a uma empresa para recolher o lixo de forma bruta na cidade, porque não incentivar também as cooperativas e a coletiva seletiva? Esta é a grande pergunta que a gente faz”, diz Rosimeire Dias, de 22 anos, integrante do Grupo de Pesquisa Cooperativas, Tecnologias Sociais e Inclusão Produtiva de Catadores de Materiais Recicláveis.

O Plano Nacional e os planos para Alagoas

A grande pergunta feita pela universitária Rosimeire Dias começou a ser discutida a sério com a implantação da lei federal 12.305, de 2010, que determinou a elaboração do Plano Nacional e de Planos Estaduais e Municipais de Resíduos Sólidos no Brasil. Entre outras exigências, a lei determina a eliminação de lixões e a consequente disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos a partir de 2014, sob pena de estados e municípios não receberem recursos federais para suas ações.

Estudante da Ufal, Rosimeire Dias orienta catadores de cooperativas

Estudante da Ufal, Rosimeire Dias orienta catadores de cooperativas

O Plano Nacional, elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente, destaca como ação fundamental do poder público desenvolver políticas associadas à inclusão social e à emancipação econômica dos catadores. Outro ponto de destaque do plano é a menção ao chamado sistema de logística reversa, adotado nos países da União Europeia, que incentiva o gestor municipal a reduzir a quantidade de lixo descartado em aterro sanitário e aumentar o volume de coleta seletiva, já que a taxa aplicada sobre a coleta seletiva seria inferior ou nula.

Em Maceió, a contagem regressiva para a implantação do Plano Nacional de Resíduos Sólidos tem levado diversos segmentos dos setores públicos e privado a discutir ações efetivas para Alagoas. O chamado Fórum Alagoas Catador reuniu representantes do governo estadual, da Prefeitura de Maceió, da Braskem, do Sebrae e de outras instituições interessadas na temática da reciclagem para alinhar as ações do setor no Estado.

O Panorama da Indústria da Reciclagem de Plástico, produzido pela Braskem e pelo Instituto Euvaldo Lodi (IEL/AL) em 2011, aponta que as cooperativas de catadores apresentam capacidade instalada ainda “frágil” e que o número de cooperados se apresenta insuficiente, seja para ampliar a área de cobertura da coleta, seja para a prática de tratamento dos materiais, “o que poderia vir a incrementar os ganhos das cooperativas”.

O panorama estima que haja no estado cerca de mil catadores. “Decerto, o desempenho industrial terá ainda maior dinamismo quando a atividade industrial estiver associada a sistemas públicos de coleta seletiva, o que atualmente só é praticado em 7% dos municípios brasileiro”, informa o estudo.

Separação de materiais coletados ainda é manual e prejudica qualidade

De acordo com Nadja Barros, diretora de Serviços Especiais e Planejamento da Superintendência de Limpeza Urbana de Maceió (Slum), o fórum pretende fazer um diagnóstico atualizado do setor em Alagoas, para que novas ações possam ser desenvolvidas. Nadja Barros reconhece que a área de cobertura da coleta seletiva na capital é insuficiente para atender às indústrias de reciclagem e defende uma organização maior do setor, principalmente das cooperativas.

“Hoje temos, por exemplo, um número muito maior de catadores individuais do que associados a cooperativas. Por isso, pretendemos capacitar as cooperativas para aumentar a qualidade do material coletado e ofertado à indústria. Isso porque se um elo da cadeia está frágil, todos os outros sentem. Este elo precisa ser financiado pelo poder público e pelo privado também”, defende Nadja Barros. “Maceió poderia estar mais avançada neste setor, mas agora precisamos aumentar as áreas de coleta de forma responsável”, diz a diretora. Ela conta que a Prefeitura de Maceió garantiu recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2) para fazer um diagnóstico detalhado do setor na cidade e, a partir daí, definir as ações que serão implementadas.

Por enquanto, a cadeia produtiva do PET continua sendo a grande promessa da indústria alagoana, como aponta o empresário Patrick Rogério. “Dizem que a reciclagem do PET é o negócio do momento, mas não é verdade. Ainda é o negócio do futuro. E aqui no Brasil você não sabe se o futuro é daqui a dois ou dez anos”.

No fim da cadeia, as novas garrafas 100% recicladas

Uma janela foi aberta com a versão para impressão
Caso não tenha aberto, clique aqui para abrir novamente