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Polícia

Assassinato de Dimas Holanda completa hoje 14 anos sem que acusados sejam julgados

Acusado de mandante, ex-deputado João Beltrão, foragido, está prestes a recuperar imunidade

11:33 - 03/04/2011 -- Plínio Lins


O assassinato do bancário Dimas Holanda – um crime que alcançou grande repercussão em Alagoas – completa neste domingo, 3 de abril, 14 anos de impunidade. O longo desenrolar do caso já teve idas e vindas, mas até hoje ninguém foi julgado como autor material ou mandante. O último movimento do processo foi o encaminhamento, pelo Ministério Público Estadual, do calhamaço à 17ª Vara Criminal de Maceió de Maceió, pedindo a pronúncia (ou seja, ordem de julgamento pelo Tribunal do Júri) dos acusados .

O acusado de ter encomendado a execução de Dimas Holanda é o ex-deputado estadual João Beltrão (PRTB), cuja situação é inusitada. Em 2010 Beltrão candidatou-se a um novo mandato na Assembleia Legislativa, mas foi barrado pela Lei da Ficha Limpa, acusado de improbidade administrativa. Obteve mais de 30 mil votos, que na época foram considerados nulos pela Justiça Eleitoral. Porém, em março o Supremo Tribunal Federal decidiu que a Ficha Limpa só vale para a eleição de 2012 – e portanto os votos de João Beltrão deverão ser validados e ele está em vias de recuperar o mandato e a imunidade parlamentar.

Atualmente, João Beltrão está em local ignorado, por recomendação de seus advogados. É que ele tem contra si um mandado de prisão da Justiça, acusado de mandante em outro crime, o assassinato do cabo José Gonçalves, em 1996, num posto de gasolina na Serraria, em Maceió.

A emboscada

No início da noite de 3 de abril de 1997, uma quinta-feira, Dimas Holanda, bancário do Bradesco, 34 anos de idade, casado e pai de dois filhos, havia dado uma breve passada na casa de sua tia Madalena, na rua principal do Santo Eduardo, bairro de classe média em Maceió. Ele se despediu da tia, que ficou na porta de casa, e entrou no seu Ford Escort vermelho. Mal havia engatado a segunda marcha, o Escort foi “fechado” por três veículos que estavam de tocaia, esperando a saída de Dimas: uma caminhonete, um Fiat Uno e um VW Golf, todos de cor escura. Começava a carnificina.

Segundo relatos das testemunhas que constam do inquérito policial, os primeiros disparos foram feitos com os executores ainda dentro dos veículos. Dimas foi atingido do lado esquerdo do corpo e ficou imóvel, aparentemente agonizando. Os atiradores, imaginando que o “serviço” estava feito, saíram cantando pneus, iniciando a fuga. Quando se afastaram um pouco, Dimas, ferido mas ainda consciente, conseguiu abrir a porta do passageiro do Escort e saiu do carro, cambaleando, para buscar abrigo na casa da tia, que assistia a tudo, desesperada. Mas os criminosos perceberam e voltaram. Desta vez, saíram dos carros. Dimas não havia conseguido ir longe: os ferimentos já o enfraqueciam e ele se escorou num poste, em frente a um ponto de ônibus e à casa da tia. Ali foi completada a execução. Dona Madalena, então com 69 anos, implorava que não matassem o sobrinho. A fuzilaria durou menos de 30 segundos. Dimas Holanda foi morto com 21 tiros no corpo – só na cabeça foram 13 tiros de pistola 9 milímetros.

Aberto o inquérito policial, houve depoimentos, suspeitas transformadas em acusações de envolvimento de gente importante, desmentidos, indiciamentos, provas, contra-provas, idas e vindas. A família apontou o então deputado João Beltrão como mandante do crime, por ciúmes. O motivo seria o fato de Dimas Holanda ter tido uma “paquera” com uma ex-miss conhecida como Clécia, que seria amante de João Beltrão.

Os acusados

O caso foi sendo protelado por inúmeros recursos na Justiça. Isso, aliado ao fato de o acusado de mandante, João Beltrão, deter foro especial por ser deputado estadual, tornou o processo uma via-crucis para a família de Dimas Holanda.

Um dos depoentes, o ex-tenente-coronel Manoel Francisco Cavalcante, afirmou ter sido informado de que o crime foi encomendado por João Beltrão.

Como autores materiais, constam na denúncia encaminhada à Justiça pelo Ministério Público Estadual o pistoleiroEufrásio Dantas (o Cutita), o então sargento PM Daniel Luiz da Silva Sobrinho (irmão do ex-tenente Silva Filho), José Carlos Silva Ferreira (o Ferreirinha), Paulo Nei, Valdomiro dos Santos Barros e Valter Dias Filho, o Valter Doido.

A família de Dimas também queria que Clécia fosse incluída entre os envolvidos no crime, porque, alegam, ela sabia que Dimas seria morto e não o avisou. Ela não foi indiciada.

A testemunha

Dona Madalena, a testemunha ocular e desesperada do assassinato do sobrinho, ficou com a saúde abalada pelo choque e morreu algum tempo depois.

Não há perspectiva de o caso Dimas ser julgado antes que o acusado de mandante recupere o mandato de deputado estadual. O Tribunal Regional Eleitoral (TRE), diante da decisão do STF, não terá como se negar a diplomar João Beltrão, o que deve ocorrer ainda em abril. A partir daí, ele terá recuperado a imunidade parlamentar e só poderá ser julgado pelo Tribunal de Justiça.